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UM REMO PARTIDO

A DIVIDIR POR TODOS


«Porque o respeito é imprescritível, não é agora ainda que divulgarei o nome de um companheiro de 1965, de que me recordo, que partiu o remo de um barco ancorado na praia, em Buarcos, em frente ao túnel, junto à Fortaleza, onde agora está um parque de estacionamento, e antes também se jogava à bola.
Não levou muito tempo, como sempre, a que ao Seminário tivesse chegado a queixa; teria sido um de nós; creio até que se sabia qual era a turma que aí passara a tarde de Domingo a jogar à bola.
- Quem foi? – perguntou à noite, talvez ao jantar, o senhor vice-reitor.
Quase toda a gente sabia, mas ninguém se acusou, nem ninguém levantou o dedo acusador.
Não me recordo das consequências imediatas, certamente que bem gravosas para o nosso bem-estar, sobretudo para os nossos tempos de lazer.
Dias depois chegou a conta e, não sei porquê, aposto que o valor do remo foi de 32$00. Acho que não estou enganado.
- Quem foi que partiu o remo? – insistiu outra vez algum dos prefeitos.
Perante um silêncio outra vez ensurdecedor, a resposta dos nossos superiores foi simples, talvez convencidos que dessa forma, condenando-se inocentes, alguém denunciasse o malfeitor. Foi esta:
- Divide-se o valor por todos e cada um paga a sua parte.
Salvo erro cinco tostões a cada um.
Sessenta e tal estavam inocentes, muitas dezenas sabiam quem tinha sido, eu acho que até os padres sabiam, só um partira o remo, a brincar, muitos não tinham nenhum dinheiro. Pois, lembro-me muito bem, ainda hoje, que ninguém ficou a dever» (AMS
)

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OS PRIMEIROS CIGARRITOS

«(...)  fumava cigarros do prefeito. Este tinha comprado um caixa inteira (paquete), assim retirava-se um maço, mas com muito cuidado e alguma habilidade conseguia-se colocar o maço seguinte na posição do anterior. Só que onde havia por exemplo seis passavam a estar cinco. Era de génio (JCG) .

 

«Gostei de recordar aquela "stória" com o Prof. Câmara... Que cena, meus! Recordo os seus cigarros "Sintra" (de cu branco) e ainda as sensações inusitadas de medo no meio dos problemas de forças e roldanas móveis e fixas» (VCL)

 

EXCURSÕES

 

«Fomos também a Curia (eram tantos na mesma "gaivota" no lago, à borla, que uma das "gaivotas” virou e houve banho - não me lembro quem - eu não!). Fomos a Aveiro também (estivemos no Estádio do Beira-Mar - que fascínio!). Eu comprei um daqueles jogos - um aro quadrado em plástico duns 8 cms com quadradinhos de plástico numerados que deslizam uns sobre outros. O jogo consistia em deslizar os números e pô-los todos por ordem (uma espécie de cubo de Cubric ou Rubric ou...isso, mas espalmado e só com números). Só eu é que descobri aquilo; portanto só havia um. Os pedidos eram tantos que eu passei a alugar o jogo por uns dez tostões por hora (dependia um pouco dos clientes e da amizade, é claro). Quando chegámos de volta a Buarcos o jogo já estava mais do que pago. Que pena não ter mantido esse forte espirito empreendedor! (LS)

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COMENDADOR
MÁRIO BARRACA
 
«Esta recordação, faz-me desafiar os meus amigos a falar do comendador MÁRIO BARRACA, de quem recebi os primeiros prémios na vida, por ter tido notas superiores a 16 nalgumas disciplinas; 15$00 por cada disciplina, deu 75$00» (AMS)
 
«Lembro-me muito bem do sr. comendador Mário Barraca. Era uma figura já de alguma idade que estava, salvo erro, ligado à vidreira da Fontela e que contribuía anualmente com algum dinheiro para dar aos chamados alunos distintos! Já não sei quanto é que era preciso para ser considerado distinto! Mas deviam ser notas altas! É que eu via os outros subirem ao palco ...mas nunca lá subi! Notas altas não era o meu forte. Tirei 17 a História no 5º ano...de resto népia! Na Figueira fui sempre aluno médio. Em Coimbra? Bom em Coimbra outros galos cantaram...mas nunca houve comendador que nos desse amêndoas! Os prémios, ou as distinções, como se chamavam na altura eram sempre entregues numa sessão solene no dia da Imaculada Conceição, dia de fatinho novo e rancho melhorado, como o João Dias bem recordou já nesta página. Da cerimónia da entrega dos prémios recordo também os discursos de Monselhor Tomás Póvoa fazendo apelo ao nosso brio e incentivando o nosso trabalho. (JVL)
 
Eu gostava aqui de recordar duas pessoas que em prémios foram os vencedores e realmente mereciam.
O Carlos Ferreira Salgado foi um deles. Não aparece por aqui, mas está ali em Ferreira do Zêzere (...).
Outro foi o JAIME (AS
).
 

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ATRACÇÃO PELA
CASA DA MÃE
 

Na Figueira só me lembro de alguns maduros cujo gozo supremo era chutar par a Casa da Mãe na esperança de aparece alguma enfermeira gira! E quantas vezes chutava um mas corria outro...a ver se era contemplado! Era uma questão de solidariedade para com o colega chutador! (JVL)

PROFESSORAS EM BUARCOS

 

Então o amigo Silvino não se lembra das Professoras de Buarcos!? Mas aposto que se lembra das meninas das Fábricas Triunfo e das nossas Colónias de Férias! E daqueles bailaricos do GIZ em Buarcos e da Senhora da Encarnação! Olha, encontrei há pouco tempo a bolachinha torrada - a Graça! Casou para os meus lados ,isto é no concelho de Miranda do Corvo e trabalha na Casa do Gaiato em Coimbra! Aqui a dois passos de minha casa! (JVL)

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O CICA ALI PERTO

 

Dos Mercedes com bancos de madeira do CICA lembro-me eu muito bem, para mal dos meus pecados! Colocado no RI10 em Aveiro, fui responsável pelo desporto inter-quartéis da Região Centro, pelo que, quando ia a Viseu ou à Guarda, apanhava boleia no banco de madeira do meu colega da Figueira ou então tinha de ir no Willis (acho que é assim) de três velocidades e sem portas! E nele cheguei a ir, algumas vezes, embrulhado em cobertores!
A falta que a tropa faz ! Como eu costumo dizer, por aí, aos inúmeros meninos da mamã, sobretudo os licenciados, que inundam hoje as Administrações (Públicas ou Privadas), convencidos de que o mundo começou só com eles e que são de uma ignorância arrogante em relação às coisas mais básicas da vida real (SP)

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SIMPATIA PELA NAVAL 1º DE MAIO

 

As recordações de Buarcos levam a dianteira. Eu já pouco me lembro de peripécias desses tempos, pois levei algum tempo a ambientar-me; tinha dez anos e picos. Recordo bastante é a turma C, que penso que era à qual pertencia, precisamente com o professor Crisântemo, dos jogos de futebol e as visitas à tarde à Naval. Como recorda o Licínio, os irmãos Camegim. (JR)

O FATO DOS MENINOS 
 
Eu não me lembro do nome das senhoras que nos tratavam da roupa em Buarcos; nem estou certo que elas também tivessem a seu cargo o refeitório.
Mas, lembro-me que a maioria de nós só tinha um fato, escuro, e, na maioria das vezes, bem sujo, graças a Deus.
Ora, chegou a hora da excursão anual; eu julgava até Há pouco que fora a Lisboa, mas talvez tenha sido ao Porto; não creio que tenha havido uma a cada lado. Sei bem que uma vez, quando ainda estava em Buarcos, fomos ao Porto e até já expus uma fotografia que o prova; mas tenho ideia de termos ido também a Lisboa, nesse mesmo ano. Terá sido? Não seria muita «fruta»?
Pois, para se sair para uma viagem dessas, era preciso (pobres rapazitos!) que os fatos estivessem limpos, ao menos escovados, pois seria uma vergonha que tantas crianças pudessem andar na rua sem fatos limpos, tarefa dada àquelas duas senhoras pelo menos por essa ocasião.
Escovas é que havia poucas e a minha parece que era de qualidade. Por isso, não tive dúvidas de, muito solícito, a emprestar, a pedido de algum dos prefeitos ou de alguma das senhoras, para a usarem nessa limpeza de dezenasa de fatos. E vaidoso até por ser útil.
Era de qualidade, mas deixou de o ser. Quando voltou os pêlos do meio tinham ficado nos fatos dos outros; restavam-lhe os dos topos esquerdo e direito.
Reclamei; indeferido.
Pedi outra escova à minha mãe; negativo.
De modo que essa excursão conduziu a que, pelo menos mais um ano, eu fui obrigado a usar uma escova que tinha pêlos no primeiro quatro, não tinha no segundo e no terceiro, voltava a ter no quarto. Até dava jeito para a segurar mais bem segura.
A pobreza era de facto uma das características de muitos de nós; já se falou em botas que serviam para andar e jogar; já se falou noutras coisas também.
Pois bem,, meu amigos, ou estou enganado ou foram precisamente essas pequenas grandes coisas que nos uniram, que nos permitiram mantermos uma união a que podemos chamar verdadeira amizade até hoje.
Será que estou mesmo enganado?

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    BOLAS

     

     

    Em Buarcos, aparece um dia o P. Zé  com uma bola de borracha cor de laranja que saltava mais que nem um berlinde no chão da zona da engraxadoria. Aquela bola era “obra do demónio”, tenho a certeza. Decerto não havia dinheiro para uma de couro e claro que veio aquela que o dinheiro pôde comprar ou aquela que talvez alguém tenha oferecido. Ora bem, com uma bola a saltar daquela maneira num espaço tão pequeno não houve rede (nem aquela árvore velha - uma pereira acho eu) que a segurasse.
    (...) Várias vezes a bola desalmada desandou caindo sobre os telhados ou à porta dos vizinhos do sul. Ao ir buscar a bola várias vezes, fui avisado por uma senhora para não acordarmos o marido que era pescador e dormia durante o dia (...) (LS)

    Quantos dos rapazes não eram capazes de dar um pontapé numa bola?

    Para quantos era a bola quadrada?

    Muitos, afinal...
    Quantos desses se negaram a pagar a sua quota-parte na bola nova cada vez que ela acabava por ter de ser substituída, depois de remendada muitas vezes repetidamente pelo ti Fadigas? (...)
    Nenhum.
    E, todavia, esses não jogavam, nem sabiam jogar, e, quando eram obrigados a jogar, as únicas vezes que tocavam na chicha era quando nem eram capazes de se desviarem do estoiro de algum colega ou prefeito mais violento!... (AMS)

     

     

CROMOS DA BOLA

«...se calhar gastava o dinheiro todo nas pastilhas elásticas para ficar com os cromos do futebol para a caderneta que oferecia uma bola de couro a quem a entegasse toda preenchida, lá em baixo na papelaria de Buarcos (como é que se chamava? Satélite???) e depois não dava para pagar as fotos... engraçado, na altura nunca que me lembrei que um dia viria a crescer e a gostar de recordar estes momentos» (MS)

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O REITOR E O DICIONÁRIO

 

 

«Ó rapaz és um alarve!»
Esta frase colocada pelo MRC remete para um passeio que demos a Fátima. Salvo erro estamos no 4º ano. Fomos de viajem até à Senhora da Azinheira e como era tradição o farnel acompanhava o pessoal. Lembro-me que naquele dia tínhamos arroz seco (aquele arroz que ainda hoje procuro imitar quando cozinho...) e bolos de bacalhau. Os tachos viajavam na traseira do autocarro. Só que a certa altura alguém levantou a tampa do tacho e deu com os bolinhos de bacalhau mesmo a sorrir, tão cheirosos e mesmo a desafiarem a nossa gula! E estão a ver a cena...aos poucos os bolinhos de bacalhau(tão apreciados por Monsenhor Póvoa)lá foram desaparecendo! De modo que na hora da refeição aconteceu o inevitável! Abertos os tachos...havia muito arroz e os bolos tinham voado quase todos! Resultado? O sr. Reitor ficou compreensivelmente aborrecido...comemos quase só arroz. Na hora do jantar, depois do regresso, tivemos direito a discurso e dose de pregação moral! Bem merecida aliás! E lá esteve o Reitor a procurar saber quem foram os artistas responsáveis pela voragem! Nada! " Sabem o que é que vocês foram? Foram uns alarves!" Silêncio sepulcral. " Não sabem o que é um alarve?" Novo silêncio. "Ò rapaz, vai lá buscar o dicionário!" . O rapaz era o Fernando Azeiteiro que tinha herdado do tio Padre Horácio um enorme dicionário de Português, muito melhor que os dicionários da Porto Editora. E o rapaz lá foi ao salão de Nossa Senhora buscar o vetusto catrapázio. Chegado o catrapázio..."Ora vê lá o que é um alarve! " E o Fernando lá foi lendo..." Alarve é o mesmo que árabe; glutão; comilão; pessoa sem maneiras...rude...boçal...". Monsenhor Póvoa atalhou de imediato! "Exactamente! Repete lá isso faz favor! Comilões! Comilões! Comilões é o que vocês são! E Glutões! Grandes Glutões!" . Bom a história ficou por aqui. Como castigo tivemos direito apenas à sopa! Não houve segundo prato para ninguém! Agradeço que não me perguntem quem é que comeu os bolos de bacalhau! Poderia acusar alguém injustamente e... já agora só respondo por mim que mal os provei!» (JVL)

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AS BOTAS DA BOLA E DE TUDO

 

«A minha entrada em Buarcos:
Senti muito a falta da família. Nessa altura tinha 3 irmãos, pois os mais novos ainda não tinham nascido.
Sabeis como nos marca esta saída do seio da família nesta altura. termos que nos orientar, ter dinheiro, comprar as nossas coisas para as aulas e viver como se fôssemos adultos.
Não tinha uma noção exacta de que havia gente com mais possibilidades que outros. Contentava-me com o que os meus pais me davam e pensava ser o melhor do mundo.
Mas quando comecei a ver colegas que tinham sapatilhas e sapatos domingueiros, comecei a sentir que lá por casa a coisa era difícil. É que eu só tinha umas botas, daquelas com rastro de pneu, porque a sola não era ainda fácil de obter.
Na escola primária, muitas vezes, os sapatos eram os que Deus me deu. Sapato novo só para casamento ou baptizado.
Por isso, recordo muito bem o meu problema para jogar futebol. Era com as minhas botas com borracha de pneu. Por isso, ninguém gostava de jogar comigo e eu comecei a detestar o futebol nessa altura. Quando corria atrás da bola raramente a apanhava. Mas quando ela aparecia na minha frente, aí vingava-me e ainda hoje recordo um grande golaço (à Eusébio) graças às minhas botas.
Também não era só por isso. É que havia lá gente que jogava muito bem. Lembro, por exemplo um franguito, que era o Pessoa, suponho que era de Febres. Que é feito dele? Este rapaz, por ser pequeno, tinha cá um poder de finta que ainda hoje passo na minha memória.
O Xico Nuno também não jogava mal, assim como o Adriano e o Adelino Guerra. Havia outros, mas não me recordo já muito bem. Agora, das botas...» (AS)

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SAPATOS GRANDES
PARA DURAREM SEMPRE
 
O que mais me custou na Figueira ...entre outras coisas... se calhar mais pequenas e ridículas...foi ter de usar os mesmos sapatos não sei quanto tempo! O sapateiro que os fez teve o cuidado de os fazer bem grandinhos...a mando do meu pai, claro! Para quê? Para durarem mais tempo! O pé crescia...10, 11...12 anos...13...anos mas o raio do sapato nunca mais se rompia! Era feito por um artista e com os melhores materiais de sola e cabedal...e com protectores! Um luxo! Se os tivesse hoje...ainda os oferecia a uma companhia de teatro ! Dariam grande jeito para um número de sapateado!

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OS NOSSOS FILMES

 

 

A gente só via um joguito do Benfica às quartas feiras de vez em quando (grandes noites), a chegada de Paulo VI a Portugal e o Bonanza às vezes (ou era o DAKTARI? ou JOSELITO?) ao domingo à tarde.
E filmes de Daniel Comboni e outros assim, sempre depois de um apetitoso Charlot, quando por lá aparecia não sei quem com uma máquina de passar filmes (que alegria a da garotada).
Mas (...) Atenção: nós rezávamos muito, com fervor, em latim, até, e no SIC ainda todos queriam ser padres, não se pense que não, depois é que... já não respondo por todos (AMS)

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Paralelo 38
 
«Certamente de todos os antigos alunos do SIC haverá por aí algum professor de geografia, que poderia recordar melhor do que eu a distinção entre um Meridiano e um Paralelo.
Um Meridiano é uma linha imaginária que une os dois polos; o Meridiano de Greenwich, que passa nessa localidade próxima de Londres, será talvez o mais famoso, havendo também quem lhe chame Meridiano Zero. A ele se deve o GMT.
Já um Paralelo divide a terra em fatias, isto é, as linhas imaginárias são perpendiculares aos meridianos, sendo a mais famosa delas o Equador.
Talvez fosse o Padre Ricardo que ensinava que um melão se cortava como se se desenhassem meridianos, enquanto um ananás se abria como se traçassem paralelos.
Paralelo também importante foi por muito tempo o Paralelo 17, que segue o curso do rio Ben Hai e dividiu, para se acabar com a guerra após os Acordos de Genebra, o Vietname do Norte do Vietname do Sul.
Mas, é do Paralelo 38 que quero falar.
O Paralelo 38 dividiu, após a Conferência de Postdam, e infelizmente divide ainda, a Coreia do Norte da Coreia do Sul, dois estados para uma só nação.
Nos anos ’60 este Paralelo estava na moda entre os alunos do SIC, que convencionaram que ele, afinal, passava ali junto ao portão da Casa da Mãe, atravessando a estrada, afinal no local mais longínquo aonde para sul e – parafraseando-o – conseguia Beato Nuno observar aquela malta que aos Domingos à tarde do Norte ia passear para o Sul, a ver a cidade ou o mar.
Ficava para trás algum Kim il-Sung ou algum Ho Chi Minh?
É claro que não; não havia ditadores no SIC; o que ficava para trás era um espaço que respeitávamos muito, um espaço em que procurávamos não fazer asneiras e uns professores, uns prefeitos, ou antes uns amigos mais velhos que nos habituámos a respeitar como os nossos pais, entre tantas tarefas mais que tinham de desempenhar para que pudéssemos crescer.
E para a frente do Paralelo 38 estava o quê?
Para a frente era a liberdade; era a possibilidade de se fumar o primeiro cigarrito sem um risco elevado de se ser observado, era a possibilidade de comprar mais um maço de cigarros para a semana, algum livro do Major Alvega ou da Colecção 6 Balas; era a hipótese de espreitar alguma miúda que tínhamos debaixo de olho; de dar uma saltada ao Casino para um joguito de matrecos; até «pegar um cineminha» à tarde, por exemplo «Goodbye Mr Chips» com a fabulosa Petula Clark; era, sobretudo, a certeza de se estar fora de muros, longe por algumas horas de alguém que, fosse em que circunstâncias fosse, estava, afinal, legitimado para nos dar uns «puxões de orelhas» nos momentos de desvio a um caminho traçado por uma formação que desejava fazer de nós um exemplo para a sociedade e que naquelas tardes bem curtas permitia uns curtíssimos e ingénuos devaneios.
Claro está que o mal não era geral.
No regresso era o contrário; não era um muro do silêncio, nem do medo; o nosso Paralelo 38 era o muro da entrada num espaço que todos, sem excepção, procuravam, tanto quanto possível, transformar numa espécie de santuário; não um local (só) de oração, não um local de isenção de pecado, não um local de repressão, mas, enfim, um local onde muitos de nós aprenderam a respeitar os outros, mas também a respeitarem-se a si mesmos e, sobretudo, a fazerem-se homens» (AMS)

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À MESA DO REFEITÓRIO
 
E quando a Ana Maria em Buarcos se lembrou que os meninos precisavam de óleo de fígado de bacalhau? Não sei quem é que lhe deu tal ideia...não sei se na Figueira também se tomava esse veneno! Quando chegou a minha vez de me enfiarem a colher nas goelas eu refilei porque já tinha visto as reacções dos outros e as caretas que eles faziam! Era fácil pois concluir que a coisa não era agradável! Mantive a boca fechada! Abre a boca Zé! Não gosto disso! Já provaste? Não! Então como é que sabes que não gostas? E pimba! Tocva de enfiar a colherinha! E nos outros dias fazia-se a careta no fim...mas não havia nada a fazer! O óleo era recomendado ...era dificil de tomar ...mas nosso senhor também fez muitos sacrifícios...e o mais importante é que fazia bem à saúde! Já agora ...alguém sabe porquê? (JVL)

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AH! FANECA!...
 
Eu chamava a um dos peixes da nossa alimentação, dia-sim-dia-não o PEIXE-BURRO, por ter uma pedra na cabeça em vez de cérebro; a faneca, pois claro (...)
Muitas vezes faneca no Seminário (...) porque era (...) mais barato e comida nesse tempo para tanta gente (...) era coisa difícil de fazer com peixes de maior qualidade. Se bem que, note-se, a faneca é um peixe bem saboroso.
(AMS)

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As Primeiras refeições:
Eu não gostava de leite, nem queijo.
O primeiro pequeno almoço: Leite com café e pão com manteiga.
À minha volta toda a malta animada. Eu olho em redor e começo a ficar aflito. Não gosto de leite.
A Aurora, com o seu cabelo louro, enrolado em rodilha, passeia por perto.
-Menino, então, vamos lá a despachar!
-Ele não gosta de leite...
-Ai não gosta? Então tem que se habituar, porque aqui não há outra coisa...
Amuo, quedo e mudo. Não tomei o pequeno almoço.
Passou-se a manhã. O Ti Fadigas chega com a sua (do seminário) opel azul, com os tachos do almoço, que vinha do seminário da Figueira.
Agucei o nariz disposto a vingar-me do vazio da minha recusa ao leite.
Mas, em vez do prato da sopa e raso, esperava-me o leite com café da manhã.
-António, ainda não tomaste o pequeno almoço! Diz, autoritária, a Aurora.
As primeiras lágrimas brilham-me ao canto do olho, com um "Não gosto" envergonhado.
-Pois, mas tens que aprender a gostar! corrige.
-Ó pá, molha umas sopas, devagarinho, e assim vais conseguir!...Dizem os colegas.
Sou muito convicto. Não! Não há nada para ninguém.
Não comi nada. Veio a tarde, e o vazio começava a parecer um oceano. O lanche, era pão com marmelada. Nada mau, António! Uma réstea de esperança na sobrevivência!
Estava desejoso da chegada do jantar.
O Pequeno almoço lá estava, como fiel companheiro.
-Então, António, tens que beber o leite... sorri a Aurora, sarcasticamente, para o meu nervosismo analítico.
-Ó Simões, isso não custa nada! Molha no pão!... Eles queriam ajudar e até já havia quem quisesse beber por mim!
Com uma coragem a que não estava habituado e porque ali a mãezinha era a Aurora e já tinha posto os pontos nos iis, molha a sopa, bebe um pouco, e assim se foi o conteúdo da caneca. Ainda a tempo de, festivamente aclamado pelos espectadores da mesa, saborear consoladamente o primeiro prato de arroz que a opel do ti Fadigas tinha transportado (AS)

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JOGOS EM BUARCOS

CHUTO PARA O AR
 
Cada um, na maior confusão e algazarra, tentava apanhar a bola de futebol que era chutada para o ar de uma pequena elevação que existia no lado esquerdo de quem se dirigia ao campo de jogos, sem que ela caísse no chão. O que conseguia essa proeza era o próximo a chutar e contava um ponto para a sua turma. Os mais possantes espalhavam-se estrategicamente e a “raia miúda” tentava impedir que alguém da outra turma apanhasse a dita cuja. (JDS)

MATA
 
Em cada um de dois rectângulos contíguos ficava uma turma. Com uma bola de futebol tentava-se ir “matando” os adversários, o que acontecia quando alguém era tocado por ela sem que a conseguisse blocar, passando então para a parte de trás do campo dos opositores. Se alguém conseguia apanhar a bola, passava de imediato ao ataque, tentando surpreender alguém que se encontrava demasiado próximo. Por vezes, todos conhecem o jogo, em tempos muito usual nas nossas praias, construíam-se jogadas com os que já tinham sido “mortos”, atirando a bola em arco sobre os adversários, que às vezes a apanhavam.
Havia uns tantos que resistiam bastante tempo, tornando-se nos heróis da turma e assim se iam construindo cumplicidades.
Mas é, sobretudo, a gritaria e a euforia por mais uma vitória que mais fortemente me vem à memória. (JDS)

PREGO
 
Riscavam-se no chão duas circunferências (ou três nos casos de três jogadores ou três pares de jogadores) com dois palmos de diâmetro afastadas quanto bastasse.
O jogador, atirando uma cavilha (prego grande), que mais se aproximasse do centro de uma cruz desenhada no chão iniciava o jogo (saía primeiro) a partir de uma das rodas e dava a vez ao seguinte sempre que o prego não ficasse de pé, ou quando a distância entre dois impactos do prego fosse superior a dois sapatos, ou se a linha que os unia cortasse uma qualquer outra já desenhada (por via das dúvidas, em qualquer dos casos, o prego era levado à vertical).
Partia-se da nossa circunferência em direcção à do adversário. Circundava-se esta, deixando o mínimo espaço entre ela e a linha que se ia desenhando impacto a impacto, e regressava-se à nossa roda, tentando deixar sempre o menor espaço entre as linhas.
Depois de circundar a nossa roda, o outro jogador fazia um pequeno (às vezes, de tão pequeno, o prego quase não cabia nele) quadrado a partir da linha desenhada com a nossa primeira jogada e a própria circunferência.
O jogo terminava quando se acertava nesse minúsculo quadrado, deixando o adversário encurralado e sem qualquer hipótese de jogar.
Uma boa pontaria e um prego bem aguçado eram as principais armas.
Modéstia à parte, era um dos melhores jogadores e o meu entusiasmo era tanto que, durante as férias do Natal, pedi ao meu pai que me aguçasse e temperasse duas ou três pontas de verguinha de ferro numa forja, que fizeram um sucesso e me deram muitas vitórias.
O meu maior adversário era o meu patrício José Rodrigues Henriques, natural da Pampilhosa da Serra, que deixou o Seminário no 2.º ano, se não estou em erro, e que nunca mais vi. Não me recordo de alguma vez termos perdido um jogo de pares, quando ambos formávamos equipa (JDS).
 

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JOGO DA CORDA
 
«Gostaria de acrescentar duas referências. A primeira tem a ver com o JOGO da CORDA. Era praticado sobretudo no recreio da noite, em dias sem chuva. O espaço utilizado era o campo de futebol.Um grande grupo de alunos colocava-se num dos topos do campo e cada um tinha como objectivo atingir o outro topo sem que fosse tocado. Este grupo num vai-vem constante movia-se, ora para cá, ora para lá. No meio do campo apenas um único aluno tentava tocar em alguém daquela massa ingente que se movimentava. Os que fossem tocados eram anexados e, progressivamente, ia-se formando uma corda humana que, em cada ida e vinda, ia engrossando, engrossando, até que acabavam todos por fazer parte da "corda"» (LC) 
 
JOGO DO BETO
 
Praticava-se também o JOGO do BETO. Neste utilizava-se uma raquete e uma bola de ténis. Era uma espécie de "baseball" americano. (LC)
 
se bem me lembro era um jogo que servia para alguns mandarem, na Figueira, umas bolas para a Casa da Mãe; e havia sempre uns mais espertos que conseguiam apanhar a bola no ar e aí acabava tudo. (AMS) 
 
 

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JOGO DA BACIA

 

Não sei se chamava assim o jogo.

Era feito à note, num espaço acimentado, por cima de um salão onde se engraxavam os sapatos (cada um tinha o seu espaçozinho). O jogo tinha duas BACIAS, uma em cada ponta do campo. O objectivo era que cada equipa pusesse a bola dentro da vbacia adversária; era feito de cócoras, sem que alguém se pudesse levantar. Havia duas equipas e o resto era um pouco como o futebol. (AMS)


JOGO DO LENÇO  

 

A baliza do campo de futebol do lado do refeitório no meio. De um lado perfilava a turma A; do outro a turma B (não me recordo já se havia três turmas, acho que eram só duas, cada uma da baliza atè à bandeirola de canto. No meio do campo alguém com um lenço na mão; ganhava a turma que conseguisse ir buscar o lenço e chegar outra vez à baliza sem que ninguém da outra turma tocasse em quem tinha o lenço, que, podia ser passado de mão em mão. É mais fácil jogar do que explicar; cada equipa tinha um capitão, que na minha turma era eu (acho que era então o que corria mais), por nomeação do mesmo professor Luis Carlos. O jogo tinha um truque, que hoje reputo de muito interessante para demonstrar a nossa honestidade ou talvez a nossa ingenuidade; prefiro aquela.
O truque consistia em que quando um jogador tinha o lenço e era tocado por alguém da outra equipa tinha de ficar onde estava; todos voltavam á linha de partida, o árbitro Luis Carlos apitava e lá iam todos outra vez, uma equipa para ir buscar o lenço e outra para tocar em quem o tinha e impedi-lo de avançar em direcção à linha. Então quem tinha o lenço não se mexia; pensando os da outra equipa que algum deles já lhe tinha ocado, obrigando-o a parar, ele aguardava que todos estivessem na linha e então corria em direcção à linha. Era aí que era importante o papel do capitão, que, necessariamente desconfiado que isso pudesse acontecer, tinha sempre os olhos no do lenço e, quando ele tentava regressar, corria para ele, tocando-o.
Por vezes havia discussão: eu toquei-lhe, não tocaste nada; o árbitro era LUIS CARLOS; e estou certo de que na maioria das vezes acreditava ele e acreditava toda a gente que se o do lenço dizia que ninguém lhe tinha tocado é porque assim era (AMS).


JOGO DA CAIXA DA GRAXA

 

As caixas da graxa eram também utilizadas, tipo Bowling, na tal sala de engraxar; ao serem atiradas a roçar pelo chão faiscavam e faziam um barulho ensurdecedor. Era um jogo normalmente nocturno e só se podia fazer quando uns padres que por lá haviam por acaso saíam, não sei se para tomar café. (AMS)

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FUTEBOL NO SEMINÁRIO
 
Atravessei os primeiros anos na Figueira qual “patinho feio” (assim me sentia) no que às lides do futebol diz respeito. As equipas formavam-se e eu... nem no banco me sentava. Vibrava. Aplaudia. Olhava para o que os mais habilidosos faziam. Imitava-os mentalmente. Sonhava até com as fintas e os golos que (não) marcava.
No meu 3.º ano, ao saltar da Prefeitura de S. Luís para Nossa Senhora de Fátima, as coisas pioraram um pouco. A concorrência em qualidade era maior ainda.
Certo dia juntaram-se uns tantos “coxos”, uns tantos escorraçados das equipas das respectivas prefeituras e fomos jogar para o campo de S. Luís.
Da minha equipa apenas lembro o José Batista Pereira Dias que tinha ainda menos jeito que eu (Zé Batista perdoa-me a imodéstia).
“Vocês os dois vão para a frente. À defesa não porque são uns passadores” – disseram-nos.
Marquei 3 golos (claro que era naqueles jogos do “muda-se aos 5 e acaba aos 10”). Não sei qual foi o resultado, mas lembro-me ainda, como se fosse hoje, de um falhanço escandaloso de baliza aberta (a que ficava junto da camarata de S. Luís), seguido duma queda aparatosa quando tentei chutar com o pé esquerdo.
O jogo era a feijões. Pouco ou nenhum jeito tínhamos. Mas, que interessava isso? O Importante foram os golos, os meus – que festa fiz! Que festa me fizeram! – e também o trambolhão que dei.
O ânimo era tal e o moral e auto-estima ficaram tão em cima que fiz planos: havia de treinar o pé esquerdo para não voltar a cair e muitos outros golos haveria de marcar ou de evitar para fazer a ver a quem dizia que era um “coxo”.
No 2.º ano na Prefeitura de N. S. de Fátima (meu 4.º ano), fiz alguns progressos, assim como no último ano, em Cristo Rei.
No Verão, corria o ano de 1966, não perdi pitada do Mundial de Inglaterra (o nosso 3.º lugar; o Eusébio a ser consolado pelo fotógrafo “Formidável”, que mais tarde vim a conhecer). Já em Coimbra e com o passar dos tempos a evolução futebolística continuou (o pé esquerdo também aprendeu a jogar), porque teria, como hoje se diz, uma grande margem de progressão. O que cresceu mesmo, foi o prazer de jogar, que se mantêm, embora não o faça há algum tempo.
Cheguei a integrar a selecção do Seminário (e outras por onde passei) e, azar o meu, nunca apareceu pelo campo dos castanheiros (não descansámos enquanto não foram cortados para duplicar a área do terreno de jogo) nenhum olheiro, senão...
Acho, tenho a certeza que aquele jogo entre excluídos e escorraçados no campo de S. Luís foi um acontecimento marcante e não apenas em relação ao futebol – se os outros conseguem, com maior ou menor dificuldade também hei-de conseguir; nunca desistir sem primeiro tentar. (JDS)

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«A BOLA»

- a nossa segunda bíblia

 

Contei já mais do que uma história onde o tema de fundo é a solidariedade, o companheirismo, a amizade sã, tudo começado pelos nossos dez, onze anitos, quando mal nos conhecíamos, como se vê por aquela história do Remo Partido sem querer, que uns sessenta pagaram, sem denunciarem nunca qual deles o quebrou.

Tivemos outras situações pelo tempo fora.

«A BOLA» foi sempre um jornal muito importante para o nosso povo; em boa verdade, o Record e o Mundo Desportivo não atingiram nesse tempo nunca o patamar de respeitabilidade que sempre me lembro ser detido por «A BOLA». E importante também para nós adolescentes então. Em jeito de parêntesis, devo dizer-vos que, embora também por «dever de ofício», compro «A BOLA» diariamente desde que se tornou num jornal diário.

Ora, pelo menos num ano, precisamente em 1967/68, ano em que o Benfica por um tris não ganhou a sua terceira Taça dos Campeões Europeus, havia um grupo de alunos do Seminário da Figueira da Figueira da Foz, entre os quais eu me encontrava – admitidos em 1965 e então no 3º ano, portanto malta de treze, catorze anos, – que comprava «A BOLA», creio que às segundas-feiras apenas, por autorização do prefeito Padre Cardoso Duarte - hoje distinto professor da Universidade Católica, em Lisboa, e grande futebolista desse tempo, como se recordam. Recordo que esse jornal nessa altura se publicava às segundas, quintas e sábados e  tenho para mim que, se «A BOLA» era para o povo uma bíblia, por maioria de razão esse jornal era para nós uma bíblia também, vá lá, uma segunda bíblia, não exageremos.

Mas, como é que uns 30 rapazes, ou mais, liam o jornal em cada edição sem se correr o risco de ficarem ultrapassadas as notícias?

Desde logo, alguns não mostravam qualquer interesse na leitura; pouquinhos, diga-se. E, trazido o jornal pelo prefeito, ele era colocado na primeira «carteira» da fila do lado da janela do salão de estudo e,  logo que lido pelo titular desse «assento», passava ao segundo, e por aí adiante até chegar ao fim. Sem atropelos, também sem pressa, embora por vezes com muita ânsia dos últimos.

Na primeira vista a leitura era mais rápida, com muito do conteúdo lido em diagonal; depois havia quem o levasse para os recreios para ler o resto, alguns para o devorarem, recortarem até, e guardarem um ou outro recorte até hoje.

Pois bem, e era aqui que eu queria chegar, apesar de nunca ser lido por muitos, nunca ninguém deixou de pagar a sua parte no jornal ao longo de pelo menos um ano lectivo inteiro.

Que maior prova de companheirismo e respeito pelos outros?

Antigos Alunos do Seminário da Figueira da Foz
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